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O que seus familiares pensam sobre seus medos femininos?

Mulher sente medo. Ponto. E hoje em dia estamos cada vez
mais conscientes do que são estes medos e o porquê deles existirem. Eles são
inúmeros: medo de pegar ônibus tarde demais, medo de pegar ônibus cheio e algum
homem se aproveitar da situação para cometer um abuso, medo de andar em um
local deserto sozinha, medo do vizinho que te olha de um jeito estranho, medo
de usar uma roupa curta, justa ou decotada demais, e assim caminhamos para
muitos outros.
A maioria das mulheres entendem isso. Outras ainda estão
caminhando para o entendimento, mas, com certeza, compartilham de uma opinião
parecida. Quando a gente compartilha estes medos, muitas pessoas, especialmente
homens, não entendem o porquê e acham que tudo isso é frescura.
Na última semana passei por uma situação assim – e com duas
das pessoas que mais amo no mundo. Eu tenho muito medo de receber homens
sozinha em casa. Por exemplo, quando preciso de manutenção da TV à cabo, fico
insegura de estar em casa sozinha com o cara que vier consertar o seu serviço.
Meu pai não entende isso e acha, nas palavras dele,
frescura. Percebi isso no dia em que vieram montar nosso novo sofá. Quatro
homens e eu sozinha em casa. Pedi meu pai para que viesse ficar comigo enquanto
a montagem era feita. Ele veio, de má vontade, e ficava perguntando toda hora
que se já podia ir embora – sendo que o serviço não estava nem na metade.
Percebi realmente que ele considera este medo uma frescura
na última semana, em que estávamos falando sobre uma obra que vamos fazer em
casa e ele disse, nessas palavras: “É só você não ficar com aquela bobeira de
ficar com medo de estar sozinha em casa com pedreiro…”. Minha madrinha, que
estava ao meu lado, concordou com ele. Sinceramente? Um tiro doeria menos!
Na hora fiquei com tanta raiva que reagi com ignorância,
dizendo que ele é homem e jamais vai entender o que é isso. Ele riu. Depois me
calei. E estou tão chateada que nem sei! Chateada porque esperava isso de
qualquer pessoa, menos do meu pai que sempre me pede a placa do taxi ou uber
que pego quando saio, que pede o telefone das amigas que eu saio, caso aconteça
alguma coisa, que me buscava no ponto de ônibus à noite para que eu não
voltasse sozinha na rua escura. Achava que ele entenderia que mulher sente medo
sim e que o medo não é desnecessário. Não apenas uma mulher, a única filha
dele.
Há uns anos, uma vizinha em frente a minha casa estava
reformando seu imóvel. O pedreiro que cuidava da obra sempre me assediava na
rua. Começou com um “ei, morena”, “ei, linda”. Depois passou para gritos de “gostosa”,
de “delícia”. Até que um dia ele falou comigo “ah se eu tenho uma chance…
abro essas suas pernas até rasgar”. Imagina se é este o pedreiro que meu pai
contrata para trabalhar em minha casa – em que eu ficaria o tempo todo sozinha
na companhia dele? Me dá nojo só de pensar no que poderia acontecer!

E caso acontecesse alguma coisa, será que eu poderia
recorrer ao meu pai? Será que ele continuaria encarando o meu medo de estar na
companhia de um homem estranho durante boa parte do meu dia como frescura?
Antes eu falaria “com certeza não”. Depois do que ele disse, só consigo dizer “não
sei”. 
Complicado, né? Você sempre espera que os seus familiares
sejam os primeiros a entender os seus medos, as suas reações, suas privações.
Mas não é isso que acontece, muito pelo contrário. Especialmente quando se
trata dos medos da mulher. Percebi nesta semana que só você mesma pode entender
o seu medo e que muitas pessoas, inclusive, as que você mais ama, podem
encará-la como frescura, como histeria (como eu ouvi).
A gente tenta desconstruir, mas quando sai algo assim da
boca do pai da gente, dói tanto que você só consegue se sentir silenciada. Mas
a gente continua na luta, né? Nem que seja por meio de desabafos com amigas que
passam pela mesma situação de machismo na família e te abraçam, mostrando que
você não é fresca, você não é histérica e você não está sendo exagerada.
Mostrando que você é mulher e sente medo porque a sociedade e sua cultura do
assédio e do estupro faz com que a gente se sinta assim e que, tendo apoio ou
não, você não está errada. 

Karla Lopes

Karla Lopes tem 27 anos, é de Belo Horizonte, blogueira e jornalista trabalhando há 10 anos com produção de conteúdo para a Internet. Além disso, aventura-se com produção de cerâmicas feitas à mão (que são vendidos na minha loja: www.heycutestore.com). Tem experiência com comunicação criativa, textos de comportamento, produção de moda e cultura e também criação e edição de vídeos para a web.

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