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Empoderamento Feminino

O que é ser uma “nega metida”?

nega metida

Há uns dias, uma pessoa x virou pra mim numa conversa e disse que eu era uma nega muito metida. É claro que falou isso sorrindo, como forma de elogio, mas aí fiz questão de saber o porquê dessa fala. A pessoa me respondeu que eu era metida por ser estudada, inteligente, esclarecida em algumas questões, bastante independente em outras e completou dizendo que não estava acostumada a ver mulheres assim.

Mais uma vez, questionei se ela não estava acostumada a ver mulheres assim ou mulheres negras assim. Percebendo que eu estava falando sério e claramente incomodada com o “elogio”, a pessoa me respondeu, meio engasgada, que era espantoso (sim, usou essa palavra!) ver uma mulher como eu, tão nova (mas na verdade não era nova a adjetivo que ela queria usar) frequentando lugares tão legais, sendo tão inteligente, independente e esclarecida. Continuei olhando para a pessoa e ela, muito desconfortável, tentou mudar de assunto e parece ter dado graças a Deus quando um conhecido chegou perto da gente antes de eu questioná-la mais uma vez.

nega metida 6

A pessoa pode não ter percebido claramente porque fiquei incomodada pelo “elogio” que fez, mas isso tudo me faz pensar muito sobre o espaço que mulheres negras ocupam na sociedade.

Por muito tempo da minha vida eu me achava completamente inferior a todas as outras mulheres a minha volta. Sentia que minha inteligência não era o suficiente, que minhas roupas nunca eram boas, que não pertencia aos locais que frequentava e diminuída pela minha cor em lugares em que ela não se faz tão presente assim (ainda diminuem).

Depois de tratar profundamente essas questões, passei a me dar o valor que mereço e sempre mereci. E aí passei a ser a nega metida. A nega metida que frequenta lugares legais, que escreve, que trabalha com coisas que acham incríveis, que viaja, fala alguma língua estrangeira, tira fotos de si mesma e posta nas redes sociais, que resolve as próprias coisas, que conversa bem, que é simpática… Enfim, tudo que outra mulher também pode ser, mas, que se for negra, será chamada de nega metida por isso.

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Acho que as pessoas se espantam ao ver mulheres negras que valorizam a si mesmas e aos seus feitos porque esse não é o papel social que se esperam delas. Quando uma mulher negra chega ao topo, muita gente encara isso como se fosse uma “invasão”, não um feito que merece elogios (e não, falar que ela é uma nega metida não é elogio).

Esses dias aqui em BH uma mulher negra foi parada na rua por outra mulher que perguntou se ela fazia faxina. A mulher negra prontamente respondeu que, não, ela fazia mestrado. Será que ela seria parada, assim do nada, enquanto caminhava, se fosse branca? Isso me lembrou quando uma pessoa x me perguntou há um tempo o que eu fazia da vida. Eu disse que era jornalista e ela respondeu: nossa, que diferente, nunca imaginei, achei que você trabalhava nessas lojinhas aqui do bairro.

Lembrando que NENHUMA profissão deve ser menosprezada, independentemente de qual seja. O meu questionamento aqui é: por que uma mulher negra é abordada por um desconhecido no meio da rua para fazer faxina ou causa espanto ao dizer que é jornalista? 

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Faça um exercício: olhe nos lugares que você frequenta, no seu trabalho ou na sua rede amigos. Quantas mulheres negras existem? Falando por mim mesma (e reconhecendo meus privilégios), eu vejo pouquíssimas pessoas negras entre meus amigos, no meu lazer e no meu trabalho. Eu sou sempre uma exceção. Quando vou a um evento, por exemplo, eu sou minoria. Nas festas também. Assim como alguns bares e restaurantes.

E quando você é minoria num local onde só a maioria tinha acesso, você causa espanto por estar consumindo o mesmo que outras pessoas não negras estão também. Então, por tudo isso, muita gente me acha uma nega metida – e sempre que falam isso, o deboche quase ganha vida própria nas palavras. Mais uma vez: não é elogio. 

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Eu não vou deixar de exaltar meus feitos, a mim mesma ou deixar de frequentar os lugares que gosto por acharem que ali não é local pra mim. Se dizem que não sou o padrão daquele lugar, o que quero mesmo é ocupar cada vez mais espaço para que as pessoas entendam que não sou uma nega metida, mas sim uma mulher como qualquer outra e que não vai se intimidar por um padrão social que criaram pra mim.

E, sim, a gente precisa se achar mesmo. Precisa ter orgulho de tudo que já conquistou, do que faz e do que ainda vai conquistar. Porque só assim a gente vai mostrar para outras mulheres negras que elas podem ser o quiserem, valorizarem a própria beleza, mostrá-la ao mundo e ocupar espaços que acham que não são delas – mas são, ôh se são!

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Como disse a educadora Doutora Azoilda Loretto neste post aqui que li no Geledés“o maior ato revolucionário que uma mulher negra pode ter é se cuidar”. Faremos isso. Com muito orgulho. Se achando pra caramba até os outros entenderem que não é nenhum espanto ocuparmos lugares que acham que não foram feitos para nós.

Karla Lopes

Karla Lopes tem 27 anos, é de Belo Horizonte, blogueira e jornalista trabalhando há 10 anos com produção de conteúdo para a Internet. Além disso, aventura-se com produção de cerâmicas feitas à mão (que são vendidos na minha loja: www.heycutestore.com). Tem experiência com comunicação criativa, textos de comportamento, produção de moda e cultura e também criação e edição de vídeos para a web.

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13 COMMENTS

  • Débora

    Ai q texto MARAVILHOSO!!

  • Schai Jesus

    Que texto maravilhoso! Essa estória de ” nega metida ” é antiga né, já ouvi isso algumas vezes, e hoje, com mais conhecimento e empoderada eu consigo questionar essa fala, quem sabe colocar um pouco mais de noção na cabeça das pessoas 🙂
    Beijos *-*

  • Nattany Martins

    Nossa, Ká, isso é muito verdade. Confesso que ainda me sinto incomodada em alguns lugares e o fato de não ter graduação me incomoda (apesar de nunca ter a faculdade como obejtivo, nunca quis fazer graduação). Sempre acho que posso fazer mais do que tenho feito e nunca estou satisfeita com minhas conquistas.
    Pra mim ainda é difícil aceitar que sou mulher negra, artista, e que apesar de todas as dificuldades sempre fui independente.
    Me sinto muito sem rumo às vezes.

    • Patii

      Não desiste. Busque Deus. Se for para você tudo será bom.

      • Patii

        Ou seja. Desafios vem mas com esperança em Deus tudo melhora. Ore e veja se é arte que é o que senhor quer para ti.

        • Patii

          E se aceite como negra, assuma. E não significa deixar cabelos cacheados (se não gostar não use), é se sentir de valor.

  • Erika

    Olá, muito bom texto, todos, sem exceção, tem o direito de ir, viver e conquistar aquilo que deseja! É nós sabemos que pra nós o esforço parace ser maior em alguns momentos. Mas vamos abrir caminhos com a nossa competência conquistada e construída a cada dia.

  • Alessandra Gonçalves

    Gente…estarmos em lugares “incomuns”socialmente e isto ser exaltado por pessoas brancas já é o óh, imaginem quando são os próprios negros, como nós que se espantam ou não nos reconhecem nestes lugares?
    Outro dia uma vizinha, conhecida antiga do bairro onde moro, vinha numa conversa toda solicita comigo, falando algo assim: -você sabe bem como funcionam estas coisas né, trabalha em cozinha há tanto tempo e num lugar com crianças tem que ser tudo muito limpo….
    Eu olhei para ela e respondi:
    Eu sei bem como deve funcionar a cozinha de uma escola, bem como todos os setores perfeitamente, sou a diretora administrativa de uma, afinal…
    Ela me olhou e fez um comentário espantoso:- é mesmo! Então faz pouco tempo que foi promovida? Eu não sabia, juro!
    Não minha querida, sempre fui desde o início, durante todo o tempo que você me vê lá!
    Acho que é uma questão de mudança de mentalidade geral, onde nós negros temos que nos reconhecer e nos saber merecedores destes lugares, nossas conquistas e nos orgulhar de muitos mais de nós e exaltar a isto!

  • Hellê

    Que texto maravilhoso, Karla. Estava conversando essa semana com minha mãe (negra) sobre casos de racismo aqui em Curitiba que têm ganhado notoriedade na mídia. Dá um nojo dessa sociedade que se julga tão digna, mas se acha melhor que todos pela cor da pele ou classe social. Tem que ocupar cada lugar desse mundo sim, tem que incomodar sim, tem que trazer desconforto sim. Afinal, já dizia o ditado, os incomodados que se mudem, não é mesmo?

  • Geiselayne Soares

    Quando pequena meu avô sempre me chamou de neguinha metida, sempre tirei como elogio da parte dele, pois sempre deixou bem claro que era lindo o meu cabelo cacheado e alto, e minha ousadia quando alguém dizia que eu tinha que molhar ou prender. Eu sempre respondia que não, pois só seria a neguinha do meu avô se eu tivesse daquele jeito. Tanto que só criei coragem pra dar escova e chapinha depois que ele faleceu. Enfim, lógico que sou um caso a parte por meu avô era descendente de negro com índios uma mistura linda de negão de cabelo bem lisinho e fino, já o meu cachos soltinhos e volumosos.

  • Maricleide

    Lindo e verdadeiro o texto.
    Eu acho o máximo as negras empoderadas causando por aì rsrsrsrsrs
    Fazem jus aos nossos antepassados que lutaram de cabeça erguida por nossa “raça”.
    Somos lindas, inteligentes, sensíveis e tudo de bom que possa haver em um ser humano.
    Que nossas crianças possam ser educadas para serem respeitadas e respeitar os outros com inteligência, porque o preconceito é falta de educação que vem de berço, é falta de cultura de um povo miscigenado.
    Que nossas crianças ocupem não somente as escolas de samba, bailes black… mas que visitem museus, parques, cinemas e estudem acima de tudo.
    Abçs.

  • Ana Paula Palmeira

    O meu marido era o único negro Procurador do Municípo Salvador( uma cidade de maioria negra) imagine que são 93 procuradores,as pessoas ficavam surpresas quando ele era apresentado como Procurador.Temos que melhorar muito ainda.
    Uma vez ele foi parado por uma senhora branca no shopping para que ele lhe informasse onde ficava uma loja: homem negro vestindo terno, a primeira vista sempre será o segurança do shopping para um racista.

  • Kathlein Ribeiro

    Karla, seu texto me fez lembrar de uma certa vez que alguém chegou pra mim e disse que eu era negra de alma branca. Tive esse mesmo sentimento, ou seja, eu não posso viajar, usar roupas de marca, ter um bom emprego porque é como se eu estivesse querendo ser branca. As pessoas não param pra pensar no quanto esse tipo de comentário é infeliz.

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